domingo, 2 de novembro de 2008

Prazer, meu nome é Coisa

Serei eu loira, ruiva ou morena? Terei olhos azuis, verdes ou castanhos? Na próxima estação, usarei amarelo, vermelho ou azul? Vestido longo, calça justa ou mini-saia? O que preferem, peitos fartos, bumbum avantajado ou cintura fina? Cabelos curtos, compridos ou presos? Afinal, o que sou? O que querem de mim?

Sou exatamente aquilo que querem, ou melhor, que fazem de mim. Para os homens sou objeto de desejo, tesão e sedução. Já para as mulheres, sou inspiração, desejo e admiração. Mexo com os sentimentos, com as carências e com os sonhos mais profundos.

Lutei para que não me vissem somente como dona-de-casa, mãe de família. Queria ser vista de outra forma e, sobretudo, valorizada. Porém, acabei excedendo - me e, hoje em dia, meu papel foi vulgarizado e sou utilizada como símbolo sexual. Não encerrado, assim, o machismo, pois fui transformada, basicamente, em objeto de divertimento, de prazer, vítima do cinismo desfrutador do homem.

Infelizmente, meu corpo tem dado bom retorno, rendendo enormes somas para as empresas. Em decorrência disso, é difícil desconstruir esse posicionamento, e mais ainda, esse pensamento. Todos me vêem, nas ruas, nas revistas, na televisão, e cada vez mais, na internet. Por isso, não esquecem de mim e me procuram assiduamente.

Não tenho mais voz, e nem preciso pensar. Tudo o que tenho a fazer é estar sempre pronta, disposta a mudar e ciente de que nada é bom o suficiente. Querem sempre maiores glúteos, menores cinturas, maiores peitos, menores barrigas, enfim, criam-me e recriam-me a cada minuto à procura da perfeição.

Vivo na época do “vale tudo”, em que a ética perdeu espaço para o capitalismo. Percebo que as pessoas perderam a sua identidade e querem, a todo custo, assemelharem-se a mim. Acham que sou feliz, não sabem que o corpo foi planejado, que o sorriso foi montado e que nem tudo é o que parece ser. Não se dão conta de que, durante este processo de identificação, estão se “auto-coisificando”.

Sei que, na verdade, eu sou um retrato do que é a sociedade. Sou a tradução do neoliberalismo e do capitalismo exacerbado. Auxilio na construção de novos conceitos, na mudança comportamental. Crio efeitos persuasivos de identificação pelo conhecido e, ao mesmo tempo, chamo a atenção pelo inédito. Acabo, assim, virando prestígio social.

Meu maior desejo é que as pessoas contestem e questionem a minha construção como produto de consumo. Nem nome mais eu tenho, todos consideram –me coisa, ou qualquer adjetivo sexual.

Um dia, tive voz e lutei para conseguir espaço, agora que o tenho, perdi a voz e tenho somente o corpo. Preciso lutar por minha voz, pelos meus direitos e pela chance de não mais ser um produto, e sim, uma mulher. O que me resta descobrir é até quando posso fazer isso.
Diga-me, por favor. Qual é o meu prazo de validade?

- Claro, Coisa. Com muito prazer.



Aí, pessoal, um texto que eu escrevi e gostaria de compartilhá-lo.
Um beijo a todos, tenham uma ótima semana.

Um comentário:

Anônimo disse...

O mais triste disso tudo é que as próprias muulheres gostam de ser vistas como objetos sexuais. Ou por acaso alguem acha que a Mulher Melancia tem alguma coisa na cabeça? Não, não.
Em contrapartida, é por isso que penso que os blogs femininos existem: para mostrar que existe cérebro dentro de um corpo que muitos julgam ser apenas peito e bunda.